Copa não é só futebol

Por Luiza Calegari

uma galera que se importa com futebol

Pro futebol mesmo, eu estou pouco me lixando, as pessoas sabem. Meu post só veio agora porque não acompanhei os jogos anteriores, não estou preenchendo a tabela com os resultados das outras chaves e quando, no meio do trabalho, vieram me dizer que a abertura da Copa tinha começado, eu dei de ombros e continuei escrevendo (pra irritação do tarado por futebol em questão). Mas jogo do Brasil é (quase) impossível de ignorar, então, pro bem ou pro mal, me vi envolvida no “maior evento esportivo do mundo blábláblá”.

Começou às 14h de ontem, quando meus amigos vieram me buscar em casa pra ver o jogo no bar ali da frente (o tradicional Beco dos Universitários). Banquinhos da cozinha de casa instalados à beira da calçada, estávamos a uma hora do início do jogo e já não era possível enxergar a televisão. Oh, céus, que situação desesperadora, que angústia inominável, o que fazer? – Um litrão de Brahma, por favor.

Eu e os quatro que me acompanhavam estávamos, digamos, deslocados ali. Nenhum de nós de verde e amarelo, ninguém com o rostinho pintado, nenhuma corneta, e empolgação só mediana, advinda muito mais da oportunidade de tomar cerveja sem culpa numa terça-feira à tarde entre amigos do que pela partida de futebol mais importante do ano até agora.

meu amiguinho torceu pra Coréia

Ao mesmo tempo em que os primeiros acordes do hino nacional começavam a soar, alguma coisa no bolso da minha calça também apitava – pois é, o tipo de pessoa que me telefona sequer sabia que o jogo estava começando. O nível de sangue circulando no meu corpo começava a baixar, cedendo espaço à Brahma (não estou recebendo merchandising de nenhuma espécie, infelizmente). Perdi momentos importantes da partida para usar o toalete, várias, várias vezes (acompanhava o andamento do jogo pelos “uuuuhhhh”s da torcida).

Com o uso pleno das faculdades mentais já prejudicado, subi pra pegar a câmera e fazer registros para o blog. Estava no meio dessa tarefa quando saiu o primeiro gol da seleção, e por isso o resultado do material produzido é esse sofrível aí embaixo:

Portanto:

Se daqui a uns dez anos, você estiver sentado comigo num bar e precisar de mim pra lembrar a copa de 2010, desculpe, eu não vou saber quem fez aquele gol. Tampouco vou conseguir recitar os nomes de todos os jogadores convocados, nem de quais clubes eles vieram. Não vou poder comentar com propriedade sobre a atuação do time ou a performance do juiz em campo. Eu não vou guardar na memória sequer o placar do jogo.

Mas eu vou lembrar pra sempre do Hobbit sendo hostilizado por torcer pro adversário, vou lembrar dos comentários sobre mocinhos interessantes compartilhados com a Samira, vou lembrar da Luana subindo sozinha trazida pela comparação com o estado do Beco na época de vestibular. Vou lembrar de brigar com o Klaus tentando recordar o motivo da nossa briga de dois dias antes, lembrar que uma dessas pessoas que eu citei furtou um pacote de amendoim e dividiu com a gente, vou lembrar da Mari se espremendo entre meninas maiores pra sair na foto, ela sim com o rosto pintadinho de verde e amarelo.

Eu vou lembrar de uma tarde linda de sol no meio da semana, de duas amigas queridas fazendo as pazes, do sufoco pra ir buscar cerveja, da poça imensa de água que ficou no meu banheiro por causa de um vazamento ocasionado por uso excessivo. Vou lembrar de caminhar depois do jogo pela rodovia e cair exausta num sofá que já conhece meus bodes e ressacas de outros carnavais. Eu vou lembrar da forma como aquela noite começou de novo depois que acordei, do dia em que meu dia foram dois, eu vou lembrar das músicas, das conversas, dos nervosismos, estranhamentos, dos cigarros, dos filmes, de violão e de carinho.

Definitivamente, Copa do Mundo não é sobre futebol. Pelo menos não pra mim. E ainda bem.

(Esse texto foi publicado com atraso devido ao receio da autora em revelar detalhes desnecessários, impulsionada por alterações fisiológicas provocadas por substâncias lícitas. Lícitas.)

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3 Comentários em “Copa não é só futebol”

  1. Nelson Rodrigues Says:

    “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos…”

  2. Boris Casoy Says:

    Isso é uma vergonha!

  3. Bruna Lima Says:

    Na próxima eu tbm vou ver jogo no Beco, rs! ;D


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