Do contra

por Jacqueline Queiroz

Eles não vão comprar vuvuzela, camisa canarinho, fogos de artifício nem irão baixar o hino da torcida brasileira no celular, muito menos decorar a casa em tons de verde e amarelo. Eles são brasileiros, mas não torcem pela seleção brasileira!

Eles não são muitos, mas garantem que as razões para tal comportamento são muitas e de complexidades bem diferentes: vão desde a indignação com a alienação decorrente do futebol frente ao caótico cenário político e social de nosso país até o simples fato de contrariarem a baderna e o fanatismo desenfreado de torcedores nas vitórias da seleção no maior evento esportivo mundial.

Ir contra a maré não é tão simples como se imagina: geralmente eles torcem sozinhos em casa, pois nos bares a massa verde e amarela não aceita bem a galera “do contra”.

Para o professor de história, Jeferson Sabran, que torce pela seleção argentina, o interesse pelo plantel alviceleste surgiu do fato de que ser diferente pode ser muito mais marcante do que seguir a maioria: “meu padrinho, Dauri Nairne, era uma das poucas pessoas que se declarava torcedor da Argentina na década de 1980, e meu pai, muito amigo dele, sempre se lembrava disso em época de mundiais. Achei uma idéia fantástica! Quem se lembra do Joãozinho torcedor da seleção brasileira? Agora o Jé (eu) ou o Dauri são aqueles traidores, torcedores da Argentina (argentinos de mierda). Acho que o meu interesse surgiu de querer chamar a atenção e me divertir com a reação das pessoas”, conta.

Jeferson: "ninguém se lembra se quem torce para o Brasil".

Além de querer “ser diferente” e chamar a atenção, Jeferson garante que a decisão de não torcer mais pela seleção nacional está ligada ao fato de que a simples participação do Brasil na Copa é capaz de mascarar os mais sérios problemas políticos e sociais: “Outro motivo de minha aversão a torcida brasileira, está associado ao fato de que entre 2005 e 2006, estourou o escândalo do mensalão em Brasília, e se ouvia nas ruas e na televisão as pessoas praguejando contra este país corrupto! Muitos se diziam envergonhados de ser brasileiros. De repente começam os rumores da copa, o ônibus da Seleção trazia a frase “de carona com 180 milhões de corações apaixonados” e as pessoas gritavam nas ruas “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Bandeirinhas de plástico verde amarelas, cornetas, buzinas… Um caos de hipocrisia. Estava armado o circo! E se na Roma antiga se dava pão e circo para as pessoas esquecerem os problemas políticos, por aqui bastou o circo do futebol! A CBF não representa o Brasil! Torcer pra seleção pra mim hoje é um antipatriotismo!”, explica.

Outro irá somar-se a torcida dos hermanos é o estudante Fernando Maciel, que diz que não torce pelo Brasil porque se sente incomodado pela equipe brasileira ser composta, em sua maioria, por jogadores que atuam no futebol internacional. “Eu não me sinto bem vendo as pessoas torcerem por um time no qual a maioria dos jogadores nem joga no Brasil e estão bem longe dos problemas que enfrentamos aqui. São um bando de hipócritas, falam que amam o Brasil, mas a conta bancária é o que fala mais alto”, revolta-se.

Pelo visto os dois não estão sozinhos, só a comunidade do Orkut “Eu torço pra Argentina e daí?”, possui mais de 30 mil participantes, já os que dizem odiar a seleção brasileira, passam dos 3 mil. Então que venha o tri. Ou não…


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